Estratégias de fragmentos

Álibis, Desvios e Atos Falhos sedimenta um caminho para o qual a obra de Guilherme Dable se dirigia com naturalidade. Isso é atestado especialmente pela peça tridimensional que o artista gaúcho instala na maior sala expositiva da galeria Eduardo Fernandes. A primeira individual de Dable em São Paulo apresenta um conjunto fluido de trabalhos, em que a pintura, o desenho, a escultura e a instalação são linguagens que se mesclam e geram resultados de difícil determinação, mas dotados de sentidos e significados móveis e inquietos.

O caráter híbrido de Álibis… ganha essa síntese em agora por favor dê-se ao trabalho de ir lá buscá-los, peça algo escultórica, algo pictórica, algo de desenho expandido. Materiais de ateliê, resíduos da urbanidade paulistana coletados nas proximidades da galeria e elementos construídos configuram uma obra que transita entre a rigidez e a fragilidade. Assentada num equilíbrio precário, desafia a força gravitacional e pede que o observador a circunde para perceber o máximo de sua integridade. Planos, paus, ripas e fitas exemplificam uma materialidade variada, indo do viscoso e do liquefeito ao mais sólido.

O aço corten manchado, as máscaras que geometrizam faixas de cor, os negros velcros, a superfície cromática reflexiva, a vaselina e o asfalto escorreitos, a madeira venosa de andaime a funcionar como ‘esqueleto’ da peça, são todos elementos que, reunidos, terminam por formar um bric a brac que dialoga com os outros trabalhos da exposição e com o próprio cubo branco, mas sem deixar de ostentar uma particularidade. Assim, é como se planos de cor bidimensionais ganhassem corporeidade, como se linhas e volumes do desenho fossem realizados com coisas reais, do mundo, e como se uma colagem projetual tivesse uma concretude, com profundidade e perspectiva.

E é por meio de um efeito sinestésico que o conjunto de Álibis… se fundamenta. Nada forçado, pois Dable extrai da música vetores importantes de sua producão visual, como o ritmo. Nisso, é relevante lembrar de Tacet, projeto constituído de desenhos e performance na qual o som é parte fulcral, exibido dentro do programa Rumos Artes Visuais. Formas, zonas de cor e escorridos têm elos presentes em todo o espaço, em obras cujos títulos vêm da poesia. E as letras encontram a arquitetura por meio de uma leitura transversal, em que projeções, rebatimentos, luz e esboços sugerem o que na teoria da arquitetura e do urbanismo se conhece por ‘estratégias de fragmentos’.

A aceitação de uma realidade caracterizada pela dispersão e pela diferença, pela soma, pela sobreposição e pelo choque entre peças e fenômenos conduz a sistemas que nada mais são do que uma recomposição de fragmentos. […] A fragmentação é a forma mais genuína da condição dispersa da pós-modernidade, e quando se torna essa condição híbrida como ponto de partida, quando se resiste à tentação da unidade, identidade e metafísica, recorre-se a mecanismos que recompõem certa totalidade, múltipla e fragmentária, como o mosaico, a colagem, a montagem, a ensambladura ou a sobreposição1, escreve o téorico Josep Maria Montaner.

Dable, então, cria uma região flutuante ao estabelecer fecundos diálogos entre obras como a hora em que o vento sopra de estrelas extintas e então, gradualmente, você acorda novamente e prossegue e as paisagens de horizontes cerrados e estreitos existentes tanto nas cercanias da galeria de SP como no ateliê onde produz diariamente, em Porto Alegre. Se o artista passara a infância em uma residência de linhas modernistas na av. Carlos Gomes, capital gaúcha, o vazio e a harmonia que predominaram nessa urbe de outrora parecem ter se cindido, criando um novo lócus, de capilaridade densa e pontos de fuga cegos. E é desse árido cenário que Guilherme Dable manifesta, diariamente, seu exercício de resistência, ao burilar uma poética de potência indubitável, mesmo que barulhenta, rugosa e permeada por acidentes.

Mario Gioia
Jornalista, crítico e curador.

 


1. MONTANER, Josep Maria.  Sistemas Arquitetônicos Contemporâneos.  Barcelona, Gustavo Gili, 2009, p. 148