Marcha da quarta-feira de cinzas

No videoclipe de Quando o carnaval chegar, canção de Chico Buarque para o filme homônimo, o compositor e o ator e diretor Hugo Carvana cantam e dançam desengonçadamente no salão do Hotel Quitandinha, em Petrópolis. O clima é de fim de festa: músicos tocam para quase ninguém, exauridos, enquanto serpentinas moribundas se espalham pela cena, como folhagem de árvores despidas, reclusas, outonais. Carvana usa um terno rosa-bebê, Chico está de branco; a paleta rebaixada e o filme antigo dão a tudo um filtro natural de melancolia. Tudo que está em cena é quase ou ainda; tudo é memória do carnaval passado, e essa lembrança é a única esperança de que haja uma próxima folia. Fiz ele soletrar seu nome, exposição que Guilherme Dable fantasiou para o Rio, também acontece como uma longa quaresma, cheia de expectativas.

O conjunto de trabalhos apresentados aqui é de certa maneira uma reverberação da exposição do artista realizada em Londres em 2016. Mas, se por um lado se agiganta a sensação de um espaço e, mais do que isso, de uma atmosfera transitória e transitiva, por outro há diferenças gritantes entre o momento capturado há dois anos e este de agora. Nas pinturas reunidas na galeria Anita Schwartz, é possível ver Dable explorar de maneira vertiginosa suas antigas preocupações com a linguagem e o fazer pictóricos, radicalizando as supostas antíteses entre o rigor e o gesto; entre o plano e o escorrimento aquarelado; entre os tons sombrios e uma luz que parece raiar sobre as sombras, vinda do fundo ou das margens da tela. Luz que se insinua, ora discreta, ora vigorosa, como uma aurora teimosa a vencer a noite. Há, de fato, um novo amanhecer dentro da história do artista. Se ainda é clara certa filiação a uma cosmogonia que tem na geometria bêbada e cambaleante de Sean Scully um de seus pilares, há cada vez mais forte a presença figurativa e – eu me arrisco a dizer – um início de reconciliação de Dable como sua identidade como brasileiro, ainda que um brasileiro lunar e noturno, subtropical.

Além das pinturas, a exposição revisita dois trabalhos apresentados na capital inglesa. O vídeo The radio was always on in the kitchen – Hammer of the gods mostra uma chaleira fervendo, que aciona um conjunto de microfones. Em Londres, há dois anos, o trabalho soava como possível metáfora de um país bipolarizado e em ebulição, permeado pelo ódio, água sempre prestes a derramar. Agora, o mesmo trabalho nos invade como uma voz fantasma e renitente, abafada pelos sofridos golpes que açodaram o Brasil. O som que chia na memória de Dable, criança na Porto Alegre dos anos 1970, vinha da cozinha. Da área de serviço das casas e prédios, os radinhos de pilha de babás, cozinheiras e porteiros tomavam a área social e patronal com o som de Odair José, Roberto Carlos e músicas folclóricas gaúchas. A chaleira do vídeo, Hammer of the gods, é o martelo dos deuses, inclemente, que parece vaticinar ser impossível calar essa massa. À parte essa sintonia com a vida que o cerca, Dable finca as raízes mais profundas de The radio… em sua própria trajetória. Ao longo dos anos, o artista sempre tratou a música de maneira analítica, recuperando o que ela tem de matemática sensível e decupando-a como um intervalo de sons e silêncios. Através de curiosa sinestesia, transpôs as áreas cheias e vazias de um intervalo sonoro para o jogo entre mancha/traço e apagamento/vazio que norteia o desenho. Sim, desenho. Com os olhos e ouvidos abertos para um imenso legado (John Cage, Chelpa Ferro, Rebecca Horn), o artista agora usa uma chaleira para transformar vapor em música e o som do microfone em desenho de ar.

O vídeo se afina com mais uma versão expandida de O samba ainda não chegou, que no Rio desafia a parede de vidro que separa a sala expositiva do segundo andar da galeria de seu terraço. “Veja, o dia ainda não raiou”, diz a canção de Gilberto Gil e Caetano Veloso na canção que batiza o trabalho (Sim, com esse artista, tudo no fundo, às vezes nem tão fundo assim, é música). A folhagem em tons pastéis que toma conta do ambiente nos leva de volta ao Quitandinha do início deste texto. E também a Matisse e a uma espécie de cambalhota que Dable propõe a um legado já perceptível que a pintura e a ideia de “ruído” deste artista imenso que é Luiz Zerbini, influência inquestionável para as gerações de pintores mais jovens.

A folhagem de papel está sujeita à ação do sol, vai perecer com a luz, como uma alegoria carnavalesca que se destrói durante o desfile. Junto a ela, os adesivos que emulam azulejos nos fazem uma espécie de síntese da mostra, com a geometria importada dos murais de Athos Bulcão, assimilada por nossa elite culta como um legado da arte brasileira, sendo invadida por estampas de padrões populares que tomavam conta das cozinhas brasileiras nos anos 1970. Presentes também como corpos lindamente estranhos nas novas pinturas de Dable, os azulejos anunciam um momento muito fértil e imprevisto na sua trajetória. “Mais que nunca é preciso cantar/ É preciso cantar e alegrar a cidade”, clamam, melancólicos, Toquinho e Vinicius. Ruidosas como a chaleira, as estampas embaralhadas, jardim flutuante e imaginário, são a negociação possível entre mundos aparentemente díspares. Se “acabou nosso carnaval” e ninguém mais “ouve cantar canções” talvez elas sejam a única possibilidade de amanhecer nessa lenta noite escura, marcha da quarta-feira de cinzas em que todos estamos mergulhados.

Daniela Name