O Esboço do Inexequível

Quando o desenho mostra tantas ausências, desmentiria ele a lógica do desenho e do desenhar? Conduzindo insignificâncias pela potência de um vazio, com pouco – ou muito – ruído, faz notar-se. Desafia a lógica dos esboços ao criar arranjamentos de planos impossíveis, experiências vindas tanto do organismo quanto da geometria, mostrando essa dialética como inacabamento essencial. E se na natureza as folhas e as flores, ao invés de se desenrolar em crescimento, se desdobrassem como quem desdobra partes aleatórias de um origami? Vazios dentro de vazios, espaços dentro de espaços, mas sempre não-lugares surgidos na dobra. O despojado é conquistado em linhas, às vezes sutis, às vezes vacilantes, às vezes firmes, às vezes finas, às vezes grossas; linhas estas que operam o retraçar e os espaçamentos. Estes últimos, como planos, às vezes com cor, às vezes sem nenhuma matéria, a não ser o próprio papel com seus acidentes, às vezes tons claros e, às vezes, muito escuros – chegando ao preto em áreas bem delimitadas – e algumas vezes com borrões. Como um esboço do inexequível, mostra toda a sorte de incertezas, que é a sua impossibilidade. Pudera! É desenho em obra.

Adriane Hernandez
Doutora em Poéticas Visuais, artista visual e professora do Instituto de Artes/UFRGS