Quase figura

Há algo meio hipnótico no encontro de diferentes materiais. Nos desenhos de Guilherme Dable, mesmo depois de os trabalhos serem dados como prontos, os materiais permanecem, um a um, mais ou menos reconhecíveis: o papel branco, que nunca desaparece por completo e cujas porções – justamente, em branco – são decisivas na construção da imagem; o grafite, base da linha, base do desenho; a tinta acrílica; a perfumada cera de abelha; o bastão de óleo; a fita crepe, que, mesmo depois de removida, deixa o traço rascante de sua presença. Ocorre que esses elementos, aqui, convivem em relativa harmonia, eles nunca se anulam, nem se contradizem. Embora se combinem, não se misturam de fato. Se há uma tensão, ela não chega a ser eloquente, trovejante. Antes de tudo, o que se adivinha é o deleite do artista na contínua experimentação desses materiais: e se o grafite, embora afirmativo, se mantivesse tênue? E se o óleo se diluísse muito, cheio de vontade? E se o acrílico escorresse, derramando-se acima e abaixo da fita que será retirada?

Nos desenhos, a tensão, se existe, vem sobretudo da combinação das formas, e talvez ela seja ainda mais estimulante do que o encontro de materiais. Do alto, avança uma geometria em amarelo, um amarelo duro, quase chapado, que bruscamente, corta para uma faixa em preto, que se desdobra em outras duas, cada uma em um cinza bem distinto. Por baixo, desponta uma série de escorridos, alguns no ritmo da diluição da tinta, outros severamente interrompidos. Planos em branco, linhas de grafite, algum verde muito claro e uma recordação do amarelo completam a composição. Há ainda uma faixa de azul que acompanha o desenho em uma das extremidades verticais, de cima até embaixo. O conjunto nada tem de frouxo, é firme, vibrante.

Talvez fosse útil recordar algo do processo de criação desses trabalhos. Menos pelo sabor fetichista que volta e meia acompanha os discursos sobre arte (em uma tentativa, já se sabe, fracassada, de elucidar os mistérios da invenção), mas, antes, pelo desejo de tentar entender melhor as razões de seu fascínio. Na origem, está a observação do mundo. Dable mantém os olhos atentos para as conformações da paisagem, daquela mais larga, em que a linha dos edifícios corta a linha do horizonte, até aquela mais íntima, doméstica, que diz respeito, por exemplo, ao jeito como a cadeira se encaixa na mesa. Todas as arestas interessam, o entorno está cheio delas, basta observar, da janela do quarto à sala de embarque, no aeroporto. Esse extenso e infindável repertório, o artista anota em cadernos de desenho, pedaços de papel e na própria memória. No momento da composição, isso tudo ressurge, mas como mero pretexto. Não se trata nunca de uma base fiel a ser seguida. Não há um apego demasiado às referências construtivas, elas retornam tão somente como uma espécie de eco, uma vaga recordação de percepções das coisas do mundo e de possíveis sínteses representativas.

O tema da representação, caro à História da Arte desde sempre, segue em aberto. Nos desenhos de Dable, que em princípio parecem abstratos, a questão retorna mais ou menos como um fantasma. Há, ali, apenas uma remota identidade entre os planos, as transparências e as linhas que se articulam e o mundo propriamente dito, os ângulos, as retas e as arestas que o artista enxergou no espaço. Essas imagens se fazem visíveis, nos desenhos, apenas como sugestões, latências, quase figuras, que se insinuam, mas não se completam. No encontro de materiais, no encontro de diferentes formas, naquilo que vibra e hipnotiza o olhar, há algo que celebra precisamente a falta, a incompletude, a impossibilidade da separação entre figura e fundo. Convivem, ao mesmo tempo, a memória de algo que já se viu e a promessa de algo que jamais se alcançará.

Eduardo Veras